11.04.2011

Um Rato

Sou um homem doente...Sou mau e sofro do fígado. Aliás não entendo porra nenhuma da minha doença, nem sei ao menos se é a doença que me dói. Faz um tempo que vivo assim, uns vinte anos. Mas sabe os senhores do que me consiste a minha maior raiva? A questão toda, a minha maior canalhice, se resumia a que todo momento, até nos instantes de ódio mais intenso, eu percebia, envergonhado, que não só não era mau, como não era nem mesmo uma pessoa enfurecida, apenas um louco que assustava pardais sem nenhum propósito e com isso me divertia. Poderia estar espumando pela boca, mas se trouxessem-me um chazinho ou um brinquedinho, me acalmaria. Embora depois, provavelmente, rangeria os dentes para mim mesmo e, de vergonha, passaria alguns meses sofrendo de insônia. Esse é meu jeito de ser.

Eu menti. No fundo nunca me tornei mau, constantemente percebia em mim diversos elementos contrários a isso. Sentia-os fervilhar dentro de mim. Eles me torturavam ao ponto de me dar vergonha; até convulsões eu tinha por causa deles! Fiquei farto, como fiquei farto! Não lhes parece que agora estou me arrependendo de alguma coisa diante dos senhores, que estou a lhes pedir perdão? Estou certo que parece... Aliás, asseguro-lhes que para mim tanto faz, se assim lhes parece.

Não apenas não consegui tornar-me cruel, como também não consegui me tornar nada: nem mau, nem bom, nem canalha, nem homem honrado, nem herói, nem inseto. Agora vivo no meu canto, provocando a mim mesmo com a desculpa rancorosa e inútil de que um homem inteligente não pode seriamente se tornar nada, apenas o tolo o faz.