Quando tivemos a oportunidade de cruzar nossos caminhos o medo desenhou marcas no chão com tamanha precisão e frieza que foi fácil antever quais palavras seriam as usadas e quais seriam esquecidas nas gavetas. Como tem acontecido com cada vez mais freqüência, próprio do passar a perceber o tempo, senti o encontro das duas pontas de outro ciclo. Tentava dar atenção às suas histórias, mas só ouvia meu desejo, sempre ele, desencontrando minhas percepções todas. Ao diabo com essa conversa. Quero te devorar.
Ironicamente, o que me mata também me nutre. Só respeito meu desejo, que acaba sempre por me trair e jogar poeira aos olhos. Em lugar de prismar minha alma, produziu nela aberrações. Distorceu. Perverteu. Resta aceitar. É a única aceitação possível.
1.18.2010
Alinhamento
Mostrou-me a cicatriz que lhe atravessava as linhas da palma da mão, como se com ela tivesse alterado qualquer leitura possível deste mapa que o tempo anota. Segurei seu pulso com a gravidade necessária a não assustar um animal acuado, lentamente explorei-lhe a textura e a temperatura. Mais que comparar, quis igualar nossas marcas. Querendo achar intersecções nas nossas dores e dali tirar razões para mais um alumbramento. “Você já ficou alumbrada?”. “Se soubesse o que isso significa, te responderia”. ”É como ficar iluminado por algo”. “Ou por alguém”, compreendeu. O silêncio e o olhar de viés responderam a pergunta. Não é seguro querer alinhar o que se deseja com o que se sente. O melhor é admitir que quase sempre é uma questão de conquistar e não se deixar conquistar. Manobrar até a armadilha.
1.10.2010
La belle gueule de bois
Meus olhos doem. A ressaca de ontem foi adiada pelo porre de hoje. A de amanhã? Veremos! Tudo permanece em meus devidos vazios. Estou cansado. Os murmúrios da cidade que ressona, acordando, dizem que devo desistir. Novamente, tentar dormir. A única coisa que me conforta são os meus cd's. Sempre eles.
Escrevo sem a certeza de onde vou, como que caminhando em madrugada desconhecida, como sempre e em vão desejei que as madrugadas fossem. Por que as noites acabam? Poderia entrar no primeiro bar e buscar algum rumo pra minha história. Esqueça, o sol está tomando conta deste lado do mundo. Um lado ao qual não pertenço. Hoje não existo. Até a próxima noite chegar.
Só fica a certeza de que o degrado, paradoxalmente, me torna vulnerável e me fortalece.
Escrevo sem a certeza de onde vou, como que caminhando em madrugada desconhecida, como sempre e em vão desejei que as madrugadas fossem. Por que as noites acabam? Poderia entrar no primeiro bar e buscar algum rumo pra minha história. Esqueça, o sol está tomando conta deste lado do mundo. Um lado ao qual não pertenço. Hoje não existo. Até a próxima noite chegar.
Só fica a certeza de que o degrado, paradoxalmente, me torna vulnerável e me fortalece.
1.05.2010
Foda-se a chapinha
Eu sigo na chuva de mão no bolso e sorrio
Eu estou de bem comigo e isto é difícil
Eu tenho num bolso uma carta
Uma estúpida esponja de pó-de-arroz
E um retrato meu e dela
Que vale muito mais do que nós dois
Eu disse ao garçom que quero que ela morra
Olho as luas gêmeas dos faróis
E assobio, somos todos sós
Mas hoje eu estou de bem comigo
E isso é difícil
Ah, vida noturna
Eu sou a abelha mais vadia
Na doce flor da tua hipocrisia
Eu estou de bem comigo e isto é difícil
Eu tenho num bolso uma carta
Uma estúpida esponja de pó-de-arroz
E um retrato meu e dela
Que vale muito mais do que nós dois
Eu disse ao garçom que quero que ela morra
Olho as luas gêmeas dos faróis
E assobio, somos todos sós
Mas hoje eu estou de bem comigo
E isso é difícil
Ah, vida noturna
Eu sou a abelha mais vadia
Na doce flor da tua hipocrisia
1.04.2010
Rainha de ouros
Não acredito em nós, nem você. Fazemos apenas promessas que podemos cumprir, mesmo que pequenas, mantêm nossas expectativas um do outro com os pés cravados em rocha matriz. Sem juras de amor eterno ou qualquer lirismo mais leviano do que um “até a próxima”. Não nos cabe palavras incertas que o tempo pode mudar. E nossa realidade brilha como o sol por de traz de suas córneas.
1.03.2010
Exorcismo pelo suor
Era o penultimo dia do ano de 2009. Fones de ouvido, tênis amarrado, duas horas da tarde na cidade esquecida pelo mundo e o mesmo sol que vi em hellcife de todas as glândulas. A intenção é correr, mas não uma corridinha ritmada, corrida “salve-se quem puder”, como se fosse o fim do mundo, até o coração doer, o pulmão arriar, as pernas não responderem. Tudo para suar, exorcismo de todos os amores, todas as redundâncias amorosas devem ficar pela estrada. Suar os amores líquidos e a represa de amores do passado, fazer chover por todos os poros o amor que fica, o amor platônico e o amor safado. Suar, derreter-me em água e vapor no ano onde vestidos, copos e a fumaça da madrugada falaram mais que todas as línguas de pentecostes.
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