10.21.2009

Numa tarde vazia

No parquinho, a aprendiz de anjo divide a gangorra com o aspirante a Lúcifer enquanto discutem. Após uma pequena pausa na discussão e aproveitando o impulso providenciado pela batida do pé angelical no chão, a menina de olhos azuis falou:

- Eeeeeeeeu, me apaixonar assim sem mais nem menos? É ruim, hein?

Com aquela risadinha de canto de boca que fica na linha tênue que separa a alegria genuína do sarcasmo de família, o garotinho de rabo coçou os chifrinhos protuberantes e resolveu falar:

- Ah, pra mim é a coisa mais fácil do mundo. Passou fazendo charme, apaixonei. Pediu hora, apaixonei. Troca de olhares por mais de 5 segundos então, é amor demais. É coisa de Deus!

- Paixão não é pra qualquer um. Mas não é mesmo! Fico bege che-ve-te quando, sem ao menos saber meu nome, os meninos fazem declarações, declamações e juras de amor. Sexo verbal definitivamente não faz meu estilo.

- Bem... Pra falar a verdade, na realidade, a grande maioria delas faz careta quando digo que paixão é que nem ter diarréia. De repente ela vem sem motivo, endereço ou razão de ser. Na praia, na rua, no supermercado: basta comer um troço assim, mais... afrodisíaco, não dá pra conter aqui dentro!

Na descida da gangorra, a anjinha encolheu as asas e apoiou os dois pés no chão, deixando o rabo do amigo suspenso no ar. Assim como fazem seus iguais, olhou nos olhos do parceiro de gangorra com aquele misto de bondade e perspicácia que só mesmo os olhos azuis conseguem proporcionar.

- Paixão pra mim é muito mais que um esbarrão e meia dúzia de palavras jogadas ao vento, no desespero hormonal de colocar a língua numa boca que só Deus sabe. Iécati! (cara de dobradinha)

- Mas a idéia não é justamente o encontro inesperado, o gesto inusitado, o beijo roubado, o tapa trocado?

- Nada disso. Tem que ter história, enredo, reviravoltas, conquista! Fazer a revoada de borboletas no estômago despertar, os joelhos tremerem e o coração cavalgar até a boca só de ouvir aquela voz... (olhar chambinho)

- Confesso que um cabelo bonito, uma carinha de moleca e um chiclete bem mascado soam como um vale-refeição pra tirar esse Corleone da jaula! (faz barulho de rugido, mais pra ronronado)

-(suspiro) Será que vocês não percebem que, poxa...Só quero alguém que me ame de verdade, me compreenda como mulher, me paparique?

O aspirante de Lúcifer, sai do aparato segurando a anjinha lá em cima com as mãos na gangorra.

- Menina, vou lhe ser sincero: não quero mais lhe enganar. Você é linda, seu jeitinho é encantador, seus olhos são um convite pra dançar (fazendo o passinho de malandro). Mas, com tantas exigências, sabe quem vai perguntar por você?

- Como assim, garoto?

- Sabe quem vai per-gun-tar por você?

- Posso saber por que isso agora?

- Sabe ou não sabe?

- Hummmm... Quem?

- Ninguém!!!

A anjinha olhou para ele depois de um tempo quieta.

- Você acha mesmo meu jeitinho encantador?