7.28.2009

Sobre um sonhador

Um sonhador não é um homem, fique sabendo, mas uma criatura de sexo neutro. Geralmente o sonhador costuma viver fora do mundo, num refugio, como se se escondesse da luz do dia, e, uma vez instalado no seu esconderijo, vive e cresce nele tal como a tartaruga, esse animalzinho singular, que é ambas as coisas, o animal e sua própria morada; o sonhador tem o aspecto de alguém que cometeu um crime num lugar ermo, que falsifica moedas ou faz poemas para envia-los a alguma revista, acompanhados de uma carta comunicando que assassinou o autor dos versos. O sonhador é rico da sua própria vida, da sua vida intima; tornou-se rico de um momento para o outro, e o ultimo raio do sol poente não brilhou em vão, tão cheio de calor vital, ao despertar no seu coração ardente uma multidão de impressões.
Se o vê andando na rua, não saberá se ele está lá realmente, pois a deusa fantasia já o envolveu na sua dourada rede que encheu de visões estonteantes, de uma vida gratuita e prodigiosa; e talvez, talvez o elevasse já, nas suas mãos caprichosas, desde a calçada dura de cimento pela qual vai caminhando, até o sétimo céu, aquele que fica mais longe deste mundo. Se nesse momento pretendesse, sem mais nem menos falar com ele e perguntar-lhe onde se encontra naquele preciso instante, ele não poderia responder; possivelmente, corando de vergonha, iria responder qualquer coisa, a primeira que lhe viesse à cabeça.

Só mais um misantropo cômico-romântico.